O esquema que levou à prisão do prefeito, vice e de toda Câmara dos Vereadores em cidade no interior do Maranhão
- 05/01/2026
A Prefeitura de Turilândia, no interior do Maranhão, estava de portões abertos no primeiro dia útil do ano. Mas a cena não significava normalidade: dentro do prédio, quase ninguém trabalhava.
Questionado pela reportagem do Fantástico por que o prédio estava tão vazio, um vigia confirmou o esvaziamento.
“Só tem eu mesmo”, disse o funcionário.
Na Câmara de Vereadores, o silêncio foi parecido. Ao serem abordados, funcionários evitaram falar e deixaram o local às pressas.
A cidade sentia os efeitos de uma operação que abalou completamente a estrutura de poder do município.
Na semana do Natal, o Ministério Público prendeu os chefes do Executivo e todo o Legislativo de Turilândia: o prefeito Paulo Curió, a primeira-dama Eva Curió, a ex-vice-prefeita Janaína Soares Lima e os onze vereadores da cidade. Ao todo, 21 pessoas foram presas.
Segundo o MP, o grupo desviou pelo menos R$ 56 milhões dos cofres públicos. O esquema teria começado em 2021, quando Paulo Curió foi eleito pela primeira vez.
As investigações apontam um sistema organizado de corrupção, com empresas de fachada, notas fiscais frias, propina e fraudes em licitações. O promotor Fernando Berniz, do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Maranhão, afirma que o problema era generalizado
“Um dado interessante e relevante, dito pela própria pregoeira, é que 95% das licitações daquele município eram fraudadas”, disse.
Em uma das mensagens interceptadas, a pregoeira cobra do prefeito uma “recompensa” pela fraude em uma licitação — entre os pedidos, uma caneta emagrecedora.
“Ei, chefe, boa tarde… Para o senhor me dar mesmo meu Monjauro e meu presente de Natal”, diz a mulher no áudio. Em seguida, ela avisa que a licitação de uma estrada vicinal seria “fracassada”, como combinado.
De acordo com o Ministério Público, empresários envolvidos no esquema recebiam até 18% do valor dos contratos por serviços que não eram prestados. Três por cento ficariam com o ex-controlador geral do município, Wandson Barros, apontado como operador financeiro. O restante voltava para o prefeito.
Durante a operação, a polícia apreendeu grandes quantidades de dinheiro em espécie. Também chamou a atenção o patrimônio do casal Curió. Uma das casas, luxuosa, tem móveis modernos e academia. A mais cara fica em São Luís, avaliada em R$ 3 milhões e 700 mil — imóvel que teve a porta arrombada durante a ação.
Segundo o MP, a casa foi comprada com dinheiro emprestado por um agiota que também é neurocirurgião.
“Havia um profissional da medicina que emprestava dinheiro para pagamento de campanha, dívidas de campanha e aquisição de bens. Parte do dinheiro que entrava no município foi utilizada para pagar essas parcelas”, afirmou o promotor.
Áudios revelam desvios
Mensagens de áudio mostram o prefeito usando o cartão de crédito de uma empresa contratada pela prefeitura. Em uma das mensagens, ele reclama do limite.
“Dez mil reais não dá pra nada… Isso não é cartão de crédito de prefeito, não. É fraco”, diz.
Em outro áudio, Paulo Curió fala em “sobras” mensais de dinheiro desviado.
“A gente vai ter uma sobra aí mensal… de uns dois a dois e meio”, afirma.
Valor semelhante ao que, segundo o MP, foi distribuído aos vereadores para garantir a omissão da fiscalização: R$ 2,3 milhões.
“Ele pagava propinas para todos os vereadores, oposição e situação, para que deixassem de fazer alguma coisa”, explicou Fernando Berniz.
Origem da fraude
A investigação aponta que tudo começou em um posto de combustíveis pertencente à ex-vice-prefeita e ao marido dela. No papel, a prefeitura comprava milhões de reais em combustível. Na prática, o volume não correspondia ao consumo.
O posto teve 58 contratos com o município e recebeu mais de R$ 17 milhões desde 2021.
“Detectamos uma grande quantidade de notas fiscais emitidas para combustíveis que não foram adquiridos”, disse o promotor.
Segundo o MP, o volume registrado permitiria que cada um dos dez carros da prefeitura rodasse 790 quilômetros por dia — o equivalente a uma viagem diária de ida e volta entre São Luís e Porto Alegre.
Enquanto o dinheiro público desaparecia em contratos fictícios, a realidade da cidade seguia marcada pela pobreza. Dados do IBGE mostram que três em cada quatro moradores vivem sem esgoto adequado.

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