Os sinais vermelhos da economia em 2027 e o que Flávio e Lula propõem para eles

  • 24/10/2026

Os sinais vermelhos da economia em 2027 e o que Flávio e Lula propõem para eles

Seja Flávio Bolsonaro (PL) ou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o eleito neste domingo (25/10), a economia deverá ser um "calcanhar de Aquiles" para o novo governo.

Quem tomar posse em 5 de janeiro terá que responder à cobrança do mercado financeiro por um ajuste nas contas públicas e lidar com a insatisfação dos brasileiros com o custo de vida e o endividamento recorde. Tudo isso, em meio a uma economia que deverá crescer menos em 2027.

Para economistas ouvidos pela BBC News Brasil, nenhum dos dois candidatos apresentou planos claros para responder a esses desafios. E respostas mais concretas são aguardadas para o pós-eleição, quando a próxima equipe econômica for finalmente definida.

Para Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, o fundamental é que o eleito não perca o senso de urgência e apresente um plano objetivo para a economia e as contas públicas "na primeira hora", já que isso ficou ausente do debate eleitoral.

O problema é que o tempo urge, porque, com esse Congresso que ganhou as eleições — apesar de ser mais à direita, o que, em um cenário de eleição do senador Flávio, poderia ser mais palatável — há outras agendas fora desse ciclo econômico, fiscal, orçamentário, e isso também impõe limitações, sobretudo se não tiver um plano coeso, um plano claro", diz Salto.

Entenda os três principais desafios do próximo presidente na economia, como os dois candidatos dizem que responderão a eles e o que de fato precisaria ser feito, na visão de economistas.

O novo presidente vai ter que lidar com uma dívida pública no maior nível desde a pandemia. A dívida bruta do governo geral — que inclui governo federal, Previdência, Estados e municípios — chegou a R$ 11,1 trilhões em agosto, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país), segundo o Banco Central.

A dívida cresce quando o governo gasta mais do que arrecada com impostos. Sem dinheiro em caixa, ele é obrigado a pegar mais dinheiro emprestado, a juros mais altos, numa "bola de neve" fiscal.

A dívida pública alta — e sem perspectiva de estabilização do seu nível em relação ao PIB nos próximos anos — gera dúvidas quanto à capacidade do governo de honrar suas obrigações.

Com isso, o Banco Central diz ter dificuldade de baixar a taxa de juros. Isso encarece investimentos e empréstimos e reduz o crescimento da economia, afetando a vida dos brasileiros em geral.

Flávio Bolsonaro tem dado sinais ambíguos sobre como pretende lidar com a questão. Por um lado, ele fala em um "tesouraço" no gasto público e nos impostos, e seus auxiliares na área econômica têm prometido em entrevistas e nos bastidores um ajuste fiscal da ordem de 1,5% a 2% do PIB nos primeiros 18 meses de governo, equivalente a um corte de gastos de R$ 190 bilhões a R$ 250 bilhões.

Por outro lado, o senador tem prometido aos eleitores que vai manter o reajuste real do salário mínimo e que não vai desvincular aposentadorias e benefícios sociais do salário-base. Afirma ainda que não vai reduzir os pisos constitucionais dos orçamentos da Saúde e da Educação e diz que seu ajuste das contas públicas deverá ser centrado em cortes de ministérios, cargos comissionados, despesas administrativas e supersalários do funcionalismo público e no combate à corrupção.

Já Lula, com seu pacote eleitoral, criou despesas fiscais com impacto de quase R$ 200 bilhões até 2030, segundo cálculo da Warren Investimentos, anterior à proposta de tarifa zero nos transportes aos fins de semana.

O presidente também segue dizendo que o crescimento da economia e a ampliação da arrecadação decorrente disso são o caminho para reduzir a dívida pública, sem se comprometer com cortes de despesas.

"Não temos, de nenhum dos dois candidatos, propostas ainda bem definidas [de ajuste fiscal], esse é um debate que ficou para depois da eleição, porque todas as propostas passam por redução de despesa, algo que é obviamente impopular", avalia Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter.

A diferença, na visão da economista, é que Flávio contará com maior condescendência do mercado no início de seu governo, por conta da experiência do governo de Jair Bolsonaro (PL), em que o salário mínimo foi ajustado apenas pela inflação (sem ganho real), e o teto de gastos do governo Michel Temer (MDB) foi mantido, com a desvinculação dos pisos de gastos com saúde e educação a percentuais fixos da receita do governo.

Já Lula tem um desgaste de credibilidade, após quatro anos de governo sem controlar o gasto, o que foi agravado pelas diversas promessas eleitorais que ampliam a despesa e reduziram arrecadação, como o Desenrola 3.0; o perdão de dívidas, o Pix de R$ 5 mil e o aumento do teto do MEI; a proibição das bets; o aumento do Bolsa Família; e a manutenção da desoneração sobre combustíveis.

Nesse cenário, tanto a economista do Inter, quanto Felipe Salto, da Warren, acreditam que, passada a eleição, "a realidade vai se impor", e algum ajuste terá de ser feito, por qualquer um dos dois presidenciáveis.

No caso das promessas de Flávio, Salto observa que "a conta não fecha", porque não é possível reduzir a carga tributária como tem prometido o candidato mantendo o Estado de bem-estar social previsto na Constituição de 1988.

Ao mesmo tempo, promessas de fazer a economia apenas cortando ministérios e vendendo ativos "não colam", diz ele, porque não geram uma economia suficiente para o país passar do déficit primário ao superávit — o que só aconteceria mexendo nos gastos obrigatórios e nas isenções fiscais.

"Se o Flávio ganhar, acontecerá uma frustração para aqueles que acreditaram nesse Flávio novo do segundo turno, que é o Flávio que diz que vai aumentar gastos, que o ajuste dele vai ser de corte de desperdícios, de redução de ministérios, porque a gente sabe que por aí não tem como fazer economia relevante", acredita Salto.

Um indício de que Flávio deverá frustrar eleitores e agradar o mercado, diz o economista, é sua postura com relação à escala 6x1. O senador votou a favor da proposta na última hora e sem comparecer presencialmente à votação, enquanto sinalizava a empresários nos bastidores que, se eleito, deve rever a medida.

https://g1.globo.com/google/amp/economia/noticia/2...


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